sábado, 9 de agosto de 2014

CORUJA O SIMBOLO DA SABEDORIA


Por que a coruja é o símbolo da sabedoria?

Por que a coruja é o símbolo da sabedoria?

Ela possui olhos adaptados para enxergar no escuro e seu olhar, para os gregos, parecia simbolizar a racionalidade.

Na mitologia grega, a coruja era a mascote da deusa Atena, geralmente relacionada à Lua. Ave noturna, ela possui os olhos adaptados para localizar suas presas sob a fraca luminosidade do luar, não suportando, por isso mesmo, a luz do Sol. Para os antigos gregos, esse olhar tornou as corujas símbolo do conhecimento racional, em oposição ao conhecimento intuitivo. O primeiro tipo de conhecimento vem da reflexão racional sobre os fatos, enquanto a intuição vem da percepção simples e imediata das coisas. Ora, como as corujas se orientam pela reflexão (da luz solar na Lua) e não pela percepção direta (da luz solar), os gregos as associaram ao conhecimento, fruto da reflexão e as sabedoria.

Autor:Desconhecido

 

O CASAMENTO EM ROMA


Casamento em Roma: direito e dever de todo cidadão

Na cidade dos césares, o casamento era condição imprescindível para a manutenção da comunidade. Por isso, os solteiros eram até multados

BIBLIOTECA DO VATICANO

A celebração do casamento era um ato familiar, e não uma cerimônia religiosa. As núpcias de Aldobrandini (detalhe), afresco.

Casar é necessário ou não? Essa alternativa, que pode parecer totalmente banal, não encontra espaço em Roma: somente alguns irredutíveis contestadores (como os poetas Horácio ou Propércio) ousaram questionar a necessidade da união conjugal, uma vez que, para os cidadãos, o casamento era um dever que permitia o nascimento de filhos legítimos que poderiam herdar o patrimônio familiar. O matrimônio era, portanto, imprescindível à manutenção da comunidade social, e não uma união resultante da atração entre dois jovens. Era antes de tudo um acordo feito entre duas famílias.

Em Roma, o casamento era um direito cívico reservado aos cidadãos e às filhas dos cidadãos. Os demais moradores das fronteiras do império não tinham a possibilidade de se casar legalmente: eles só podiam contrair uniões qualificadas como concubinagem. Determinadas condições eram necessárias para a formação de um casal legítimo: interdição do incesto (mesmo sendo frequentes as uniões entre primos, sobretudo entre os germânicos), monogamia (no entanto, muitos homens abrigavam em seu domicílio uma concubina, que convivia com a esposa legítima), idade mínima legal (12 anos para as moças; 14 anos para os rapazes), consentimento dos futuros esposos e estabelecimento de um contrato entre as duas famílias.

Uma vez que o casamento era considerado indispensável à sobrevivência da sociedade, algumas leis instituídas por Augusto no ano 18 a.C. previam pesadas multas para os solteiros. Além disso, eles não podiam receber herança. E já que a procriação constituía a conclusão lógica do casamento, os homens casados e sem filhos eram também punidos de maneira similar.

MULHERES EMANCIPADAS Originalmente em Roma, o casamento era qualificado in manu, isto é, a mulher sob a autoridade do marido. Ela se tornava, por assim dizer, a filha deste último. No entanto, desde o século V a.C., o casamento in manu tendeu a desaparecer para dar lugar a uma união sine manu (sem autoridade): a mulher casada não passava mais da autoridade do pai à do marido, o que permitiria uma emancipação feminina em Roma.

A esposa dependia apenas de um tutor, escolhido fora de sua família, que podia ser trocado conforme sua vontade. A tutela se tornou uma formalidade que não trazia nenhum embaraço à liberdade da mulher. O casamento não era, então, em Roma, um fator de limitação aos direitos da mulher, uma notável exceção na Antiguidade.

ARLES MUSÉEE ARCHEOLOGIQUE

PADRE CICERO AOS 80 ANOS


PADRE CÍCERO AOS 80 ANOS DE IDADE


 

DATA DA FOTO: c.1924.

FOTÓGRAFO: Benjamin Abrahão.

LOCAL: Ceará, Brasil.

 

Padre Cícero Romão Batista foi um importante líder religioso brasileiro. Nasceu em 1844 no estado do Ceará. No ano de 1889, Padre Cícero ganhou notoriedade no Nordeste, pois um fato ganhou repercussão nacional. Conta-se que, durante uma missa na igreja de Juazeiro (Ceará), a hóstia consagrada por ele transformou-se em sangue na boca de uma mulher.

A população local passou a considerar o padre como um milagreiro. A Igreja Católica, não concordando com os acontecimentos, considerou-o como místico e o proibiu de exercer o sacerdócio. Viajou para Roma onde conseguiu a absolvição do Papa João XIII. Porém, continuou proibido de celebrar os rituais do catolicismo.

Entrou para a política e foi prefeito da cidade de Juazeiro por 15 anos. Morreu no ano de 1934, tornando-se uma das principais figuras religiosas da história do país. Até hoje, o túmulo de Padre Cícero é um dos pontos de peregrinação mais importantes do Brasil. 

 

Obs. Todas as informações dessa postagem (crédito e texto) são merecidamente de autoria do Sr. Fernando Rabelo, cujo blog é http://imagesvisions.blogspot.com.br.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A QUESTÃO AGRÁRIA NA ROMA ANTIGA


 

O processo de expansão territorial romano foi agente determinante para que este reino se enriquecesse e se transformasse em um dos mais poderosos impérios de toda a Antiguidade. Contudo, sem antes contar com uma política de distribuição das terras conquistadas, percebemos que a riqueza gerada por essas propriedades ocasionou fortes tensões políticas no interior da República Romana.

Com o passar do tempo, os grandes proprietários de terra – na maioria, patrícios ligados ao Senado – passaram a ameaçar a subsistência dos pequenos proprietários. Contudo, algumas transformações na organização política das assembleias foram de suma importância para que essa situação se modificasse. Por volta do século II a.C., uma nova lei instituiu a adoção do voto secreto para a escolha dos magistrados.

Essa transformação permitiu que os irmãos Tibério e Caio Graco fossem eleitos como tribunos da plebe e elaborassem leis que promoveriam uma grande reforma agrária nos territórios romanos. Em 133 a.C., Tibério Graco foi eleito tribuno da plebe e conseguiu a aprovação de uma lei que delimitava a extensão das terras da nobreza e permitia a distribuição de terras públicas aos menos favorecidos.

Contudo, apesar de promover uma transformação benéfica a uma parcela significativa da população romana, este não teve o apoio popular necessário para consolidar seu projeto. Acusado de tirania, por ter deposto um tribuno e conseguido a sua reeleição, Tibério foi, no ano seguinte a sua posse, assassinado junto a mais outros 500 políticos que apoiavam o processo de redistribuição de terras.

No ano de 125 a.C., uma reforma da lei romana passou a autorizar a reeleição dos tribunos da plebe. Aproveitando dessa mudança, Caio Graco assumiu seu segundo mandato como tribuno, em 123 a.C., e decidiu retomar o projeto de reforma agrária de seu falecido irmão. Contudo, para que seus objetivos fossem alcançados, teve o cuidado de ampliar suas bases de apoio político.

Inicialmente, buscou o apoio dos cavaleiros romanos ao aprovar uma lei que permitia a participação destes na administração das províncias e na organização dos órgãos judiciários dessa região. Logo em seguida, se aproximou das populações vizinhas à cidade de Roma. Em um novo projeto de lei, Caio Graco concedeu cidadania plena aos latinos e a cidadania parcial (sem direito de voto) aos demais habitantes da Península Itálica.

Alcançada a formação de seus grupos aliados, este astuto tribuno estabeleceu reformas que realizaram um novo modelo de distribuição das terras conquistadas em Tarento e Cápua. Além disso, conseguiu a aprovação da Lei Frumentária, que reduziu o valor de revenda do trigo para pessoas mais pobres. Reeleito em 122 a.C., Caio iniciou o projeto de fundação de uma colônia em Cartago.

Sentindo-se prejudicados por tais mudanças, os patrícios buscaram o apoio dos plebeus. Para consegui-lo, a elite romana argumentou que os plebeus poderiam perder a exclusividade de seus privilégios com a extensão da cidadania às populações vizinhas. Sem demora, os plebeus não concederam um novo mandato para Caio Graco, que em resposta tentou armar um golpe de Estado.

A ação gerou uma enorme conturbação social que desestabilizou o cenário político romano. O Senado decretou estado de sítio e concedeu poderes ilimitados aos cônsules. Mediante a pressão dos grandes proprietários e dos senadores, Caio Graco se refugiou no Monte Aventino junto de seus partidários. Observando que não poderia esboçar uma reação, Caio acabou ordenando que um de seus escravos o matasse.

Apesar do projeto dos irmãos Graco terem sofrido severa oposição, outras figuras políticas tentaram retomar o seu projeto. Em 91 a.C., o tribuno Marco Lívio Druso buscou aprovar uma lei de redistribuição de terras. Mais uma vez, os grandes proprietários armaram um golpe que resultou no assassinato do tribuno. Contudo, o evento foi responsável pela deflagração da Guerra Social, que entre os anos de 90 e 89 a.C. assinalou as tensões que tomavam Roma por causa da questão agrária.

Fonte:Rainer Sousa

REVOLUÇÃO NEOLITICA


 

Ao longo de todo o período Paleolítico, o homem desenvolveu uma série de habilidades físicas e técnicas que lhe permitiram aprimorar a sua vida na terra. Contudo, o aspecto rústico destes instrumentos lhe permitia realizar um campo bastante limitado de intervenções na natureza. Em geral, o indivíduo desse período histórico assegurava sua sobrevivência coletando alimentos oferecidos pela natureza ou realizando outras atividades, como a pesca e a caça.No momento em que alguma alteração climática ou esgotamento de recursos inviabilizasse a sua existência, nossos ancestrais paleolíticos se deslocavam no território em busca de um lugar que oferecesse melhores condições. Dessa forma, podemos avaliar que a vida nômade foi uma das mais importantes características que marcaram a vida humana até aquele momento. Contudo, estando em constante mudança, esse homem transformou o seu modo de vida com a chegada do período neolítico.

O fim da última era glacial transformou as condições climáticas em seus mais variados aspectos. A diminuição das temperaturas provocou a formação de um clima temperado em grande parte do continente europeu. O norte da África se transformou em uma região extremamente árida e a região do Saara sofreu um grande processo de desertificação de suas terras. Em meio a essas mudanças, homens e animais foram obrigados a se espalharem por regiões diversas em busca de água e vegetação.

Quando alcançamos a entrada do Neolítico, há cerca de dez mil anos, os grupos humanos existentes já acumulavam um variado leque de saberes apreendidos graças à sua habilidade de raciocínio. Ao longo do tempo, já sabiam distinguir quais tipos de fonte de alimento eram próprias para o seu consumo. Além disso, construíam pequenas embarcações e criavam utensílios mais resistentes do que aqueles que foram inicialmente desenvolvidos.

Foi nesse contexto que uma profunda transformação passou a se desenvolver no cotidiano do homem pré-histórico. A observância da própria natureza permitiu que as primeiras técnicas de cultivo agrícola fossem pioneiramente desenvolvidas. Com isso, a garantia de alimento se tornava cada vez mais acessível e a constante necessidade de deslocamento se tornou cada vez menor. Essa transformação, que se difundiu ao longo dos próximos seis mil anos, deu origem à chamada “Revolução Neolítica”.

Conforme indicado por alguns estudiosos, essa transformação, também conhecida como “Revolução Agrícola”, primeiro ocorreu na região do chamado Crescente Fértil, ampla faixa de terras que abrangia desde o Rio Nilo, indo até o lugar onde se encontram os rios Tigre e Eufrates, local onde hoje identificamos a Síria e o Iraque. Com o passar dos séculos, o aprimoramento dessas técnicas agrícolas e a sedentarização permitiram uma dieta alimentar mais rica e um expressivo crescimento dos grupos humanos.

Fonte:Rainer Sousa



O POLITEISMO E O CRISTIANISMO


Júpiter.para os romanos ou Zeus para os gregos.
 

A religião sempre desempenhou um papel fundamental entre os romanos. No âmbito doméstico, as famílias se reuniam para adorar seus ancestrais no culto aos deuses lares. Em todas as casas havia uma capela – o lararium – e um altar com um fogo aceso. Ali se reuniam as pessoas para fazer oferendas e orações. Também eram adorados os penates, deuses protetores das dispensas e dos víveres domésticos. Na esfera pública, religião e política se sobrepunham. Os sacerdotes formavam um subgrupo de elite que dava conselhos políticos e fazia rituais e sacrifícios.

Muitos deuses romanos eram de origem estrangeira, sobretudo grega: Júpiter, por exemplo  correspondia a ZeusVênus deusa do amor era identificada comoAfrodite. Com Otávio, o culto religioso concentrou-se também na figura do imperador, que, ao adotar o nome Augusto, passou a ser considerado um deus.

  Entretanto, no final do período republicano, parte da população passou a seguir doutrinas que pregavam o aperfeiçoamento interior a crença na vida após a morte. Particularmente importante foi o cristianismo, religião monoteísta originária do judaísmo.

O cristianismo baseia-se nos ensinamentos de Jesus, que teria vivido na Palestina no século I de nossa era, época em que a região era dominada pelos romanos. Seus seguidores – os cristãos – acreditavam ser Jesus o filho de Deus, enviado à Terra para pregar o amor ao próximo e redimir a humanidade de seus pecados.

Com sua doutrina, Jesus entrou em conflito com os sacerdotes judeus – que não o  reconheciam como o Messias enviado por Deus – e com as autoridades romanas, para as quais apenas o imperador tinha caráter divino. Além disso, ele pregava o amor universal, sem distinção entre ricos e pobres. Considerado perigoso pelos grupos  dominantes, Jesus foi condenado a morrer na cruz.

Após sua morte, seguidores de Jesus (chamado de Cristo, que em grego significa “o ungido”) se espalharam por diversas regiões e passaram a divulgar seus ensinamentos. A partir de então, o cristianismo alcançou uma rápida difusão. Durante certo tempo, os imperadores romanos viram na nova religião uma ameaça a seu poder e perseguiram as comunidades cristãs.

              (Fonte:  John Bowker. Para entender as religiões. São Paulo: Ática, 1997. p. 15, 144-6; Eduardo Hoornaert. Memória do povo cristão. Petrópolis: Vozes, 1986. p. 41-75.,)

Gislane e Reinaldo. História. ensino médio. volume único.

 

POR QUE ROMA DESMORONOU



Para o historiador inglês Peter Heather, a queda do Império Romano ocorreu não por causa da decadência política ou econômica, mas por pressões externas de povos bárbaros.

Era o fim. A fumaça e o fogo se espalharam pelo campo de batalha, e logo se misturou no ar um cheiro de suor, sangue e corpos queimados. Os cadáveres de 20 mil soldados romanos, dos 30 mil que haviam participado da luta, se espalhavam inertes pelo chão. O imperador Valenciano, que pessoalmente comandara o embate, também desapareceu naquele dia, 9 de agosto de 378, sem deixar vestígios. De acordo com relatos de sobreviventes, ele foi queimado vivo pelo inimigo. Os godos tinham vencido de maneira espetacular. O episódio, um divisor de água na história de Roma, ficou imortalizado como a Batalha de Adrianópolis (que aconteceu na região da atual Turquia). Nunca mais o mundo seria o mesmo. Cem anos depois, entraria em colapso a maior força política e militar de todos os tempos, o Império Romano do Ocidente – seu território se estendia da Itália ao norte da África e ao Oriente Médio.

Alguns anos antes da batalha, os godos já haviam penetrado na Turquia, saqueando cidades e provocando o caos. No ano de 378, pretendiam derrubar as portas de Adrianópolis, próxima a Constantinopla (atual Istambul), a capital do Império Romano do Oriente. Esse braço da administração imperial havia sido criado em 330 para facilitar o controle dos territórios na Europa Oriental, no norte da África, Turquia, Síria e Iraque.

Os romanos acreditaram que, como no passado, seria fácil derrotar os bárbaros. Então, como sempre, extrairiam um tratado de paz e teriam mais um reino-cliente, que compraria mercadorias fabricadas em Roma e cederiam guerreiros para lutar nas legiões quando fosse necessário. Mas eles não contavam que os godos não estariam sozinhos. Ao lado deles, para surpresa do imperador Valenciano, combatiam os temíveis hunos e os alanos.

Por trás da estrondosa vitória de 378 houve mais, entretanto, do que o fator surpresa. O desenvolvimento social, econômico e social das tribos bárbaras e sua convivência durante séculos com os costumes romanos explicariam, em grande parte, o sucesso na Batalha de Adrianópolis e nas campanhas seguintes. Em suma, causas externas, e não internas, seriam os principais responsáveis pelo desmoronamento da grande potência. Essa visão, sustentada pelo prestigiado historiador inglês Peter Heather, da Universidade de Oxford, contradiz as antigas versões sobre a queda do Império Romano. Sim, tudo aquilo que você aprendeu. Corrupção, colapso da economia e crise política? Esqueça, afirma Heather em seu livro The Fall of the Roman Empire – A New History of Rome and the Barbarian (“A Queda do Império Romano – Uma Nova História de Roma e dos Bárbaros”), publicado neste ano na Europa e nos Estados Unidos e ainda inédito no Brasil.

Para Heather, a economia romana estava bem, a corrupção era algo corriqueiro (e não era mais acentuada no final do império do que em seu início) e as trocas de imperadores, que realmente existiram nos séculos 4 e 5, não seriam motivos suficientes para explicar o colapso de Roma, fato que permanece como um dos maiores mistérios da Antiguidade. Afinal, perguntam-se até hoje os historiadores, como foi possível que rudimentares tribos bárbaras invadissem Roma? A resposta, para Heather, está em dois pilares: as migrações de grandes grupos bárbaros na Europa Oriental a partir do século 3 e a crescente sofisticação política, econômica e social de povos como os godos e vândalos.

A tese, como seria de se esperar, suscita polêmicas. Para Richard Saller, historiador da Universidade de Chicago e um dos maiores especialistas do mundo em Roma antiga, o raciocínio de Heather não é muito convincente. “A queda do Império Romano é uma questão muito grande e complicada para ter só uma explicação. Se a economia e o poderio militar de Roma estivessem crescendo, os ataques militares dos inimigos poderiam ter sido repelidos”, analisa. Heather, por sua vez, sustenta que os povos bárbaros mudaram, adotando uma organização política e uma nova inteligência que levaram a batalhas como a de Adrianópolis. “Além disso, não é possível afirmar que a economia de Roma estivesse mal. Foram tomadas, isso sim, medidas emergenciais para que mais legiões pudessem ser financiadas para vigiar as fronteiras no Oriente, então ameaçadas”, diz Heather.

Tudo havia começado, segundo o historiador inglês, com os bem-sucedidos ataques persas às forças romanas estacionadas no Oriente, no século 3. Pela primeira vez, os árabes representavam um obstáculo ao poderio do império. Segundo Heather, a origem do problema estava na própria dinâmica da hegemonia imperial. As repetidas vitórias das legiões na região causaram uma crise de poder nas lideranças do atual Irã, até que, no final do século 3, uma nova dinastia emergiu, os sassarianos. Eles marcharam sobre a Mesopotâmia (na região do atual Iraque) com muito mais eficiência do que seus antecessores, os arsacid. “O aparecimento de um super-rival foi um grande choque”, diz Heather em seu livro. E Roma precisava reagir.

Tempos de inflação

O grande desafio era mandar mais tropas para o Oriente, mas sem se descuidar das fronteiras da Europa, que desde o século 2 sofria ataques dos bárbaros. Mas era preciso criar recursos para financiar os reforços militares que protegeriam a região da Mesopotâmia. A solução foi desvalorizar a moeda, para ter mais dinheiro – aparecia aí, pela primeira vez de que se tem notícia, a inflação – e aumentar os impostos. Outra medida foi confiscar os recursos gerados pelas cidades – antes, os fundos podiam ser administrados pelos governadores locais. Os ajustes foram eficazes: em 298, os sassarianos finalmente foram derrotados.

E a economia não ficou em frangalhos depois disso? Para os adeptos da tese de que Roma caiu por causa de reveses econômicos e políticos, sim. Um dos defensores dessa interpretação é o historiador italiano Giovanni Cipriani, da Universidade de Lecce. “Criou-se a inflação, os camponeses ficaram mais pobres e antigos aliados de Roma, como os francos, não tinham mais tanto interesse em defender o império”, afirma Cipriani.

Segundo Heather, não foi bem assim. As províncias romanas, como as atuais França e Espanha, viviam na época um boom, com uma agricultura florescente e importações crescentes de artigos romanos, como cerâmicas, vidros, jóias. Por isso, a vida econômica do império não teria sofrido uma mudança tão grande a ponto de minar suas estruturas.

Para Heather, a grande questão é que, no século 4, a Europa vivia uma revolução sem precedentes. Grandes migrações ocorriam no continente, motivadas pelos avanços dos temidos hunos, uma tribo nômade originária da Mongólia que passou a procurar novas terras na Europa Central, expulsando os grupos de ali viviam. Ninguém sabe ao certo por que os hunos resolveram deixar sua terra natal. Uma hipótese é que eles tenham sido atraídos pela riqueza das vilas próximas às fronteiras do Império Romano, que se beneficiavam da necessidade de vender alimentos para as tropas romanas e fornecer serviços em geral.

Por onde passavam, os hunos espalhavam o terror. Eles faziam uma guerra-relâmpago, matando o maior número possível de pessoas em um curto espaço de tempo. Não contentes, saqueavam tudo o que viam pela frente. À primeira notícia de que os hunos estavam se aproximando, os povos em seu caminho fugiam apavorados. “Os alanos escaparam, empurrando os godos, que foram cair em cima dos romanos”, resumiu uma fonte da época, o bispo Ambrósio, de Milão.

Algumas vezes, as lideranças mais fortes desses grupos faziam alianças com os hunos, como na Batalha de Adrianópolis. De qualquer forma, o contato com os mongóis, se por um lado trazia medo, por outro ensinou às tribos européias novas táticas de guerra. E, para a felicidade delas, a necessidade de dobrar os resistentes persas tinha deixado as fronteiras da Europa menos guarnecidas. O Império Romano como um todo havia se voltado mais para o Oriente do que para o Ocidente. Os generais na Europa se viram sem liderança, e teve início uma anarquia militar que durou 50 anos, até meados do século 4. “Mas observa-se que, mais uma vez, tratava-se de problemas de ordem externa, e não interna”, diz Heather.

Bárbaros sofisticados

Para o azar dos romanos, nos últimos dois séculos os bárbaros haviam se sofisticado, e muito – para os historiadores, incluindo Heather, isso aconteceu em grande parte devido a uma convivência de séculos com Roma. Eles ainda eram analfabetos, mas já tinham lideranças fortes e certa coesão política – no passado, as tribos dificilmente se entediam entre si. No plano econômico, haviam descoberto novas técnicas agrícolas que aumentaram a produtividade, gerando riqueza. Além disso, as trocas comerciais com o Império Romano trouxeram ainda mais recursos. Uma elite se formava, pela primeira vez. E ela estava sedenta de autonomia política e independência total em relação às forças romanas.
“Os imperadores resistiram durante dois ou três séculos, mas depois não conseguiram mais segurar os bárbaros”, diz Heather. Nem todos especialistas concordam com essa teoria. Para Richard Saller, da Universidade de Chicago, se a economia do Império Romano estivesse em melhor estado – sem inflação e pesados impostos –, talvez houvesse uma possibilidade mais concreta de contra-atacar. “Mas, no século 5, já estava decretado o destino de Roma”, afirma.
Para atingir seu objetivo, as tribos partiram para a guerra, e para valer, freqüentemente fazendo alianças entre si – outro fato inédito. Os piores ataques foram comandados por líderes vândalos, alanos, suevos e godos, entre os anos de 405 e 408. Eles invadiram as fronteiras junto ao rio Danúbio e conquistaram a Espanha, a França e a Bélgica, então províncias romanas. Os hunos também não deram trégua, obrigando as legiões a combatê-los sistematicamente na região das atuais Áustria, Croácia, Hungria e Eslovênia. Nesse cenário, um grupo de godos conseguiu invadir Roma em agosto de 410, saqueando-a completamente por três dias. “O mundo romano estava abalado em suas fundações”, escreve Heather em sua obra.

Segundo o historiador, mesmo que quisessem as províncias não poderiam revidar. Novamente, acredita Heather, o problema era gerado muito mais fora do que dentro dos limites do Império Romano. Essa tese é controversa. Para outros estudiosos do tema, os povos dominados, por estarem descontentes com a política imperial, não resistiram tanto assim aos ataques. “Foi tudo muito rápido. E posso dizer que na França, por exemplo, já havia um desejo por autonomia, tanto é que alguns anos mais tarde se formaram os feudos e as monarquias locais”, diz o italiano Cipriani.

O Império Romano dava seu último suspiro no Ocidente. No Oriente, com sua capital na Turquia, sobreviveria até 1453, quando os turcos otomanos tomam Constantinopla. Emblematicamente, foi um líder meio huno, meio germânico, Odoacro, que em 4 de setembro de 476 colocou o Império Romano de joelhos. Ele obrigou o imperador Rômulo Augusto a renunciar, com consentimento da administração da outra ponta do império, em Constantinopla, e passou a ser o governador da Itália. Os romanos deixam de ser os donos do Ocidente. Foi o fim da maior civilização que já havia existido. “E, com certeza, não por decadência dos romanos”, afirma Heather. “Mas sim graças a uma enorme força exterior que era impossível combater.”

Quem eram os bárbaros

Os antigos romanos consideravam bárbaros todos os povos que viviam fora do limite do império. “Eles não sabiam ler, escrever e levavam uma vida simples”, diz Peter Heather. Havia vários desses grupos espalhados pela Europa, como os suevos, vândalos, ostrogodos, visigodos, francos, alanos e hunos. Estes últimos eram considerados os mais letais de todos os bárbaros. Seu maior chefe foi Átila. Após sua morte, em 453, os hunos foram dominados por outras tribos e desapareceram.

Como era a vida em Roma no século 5

Como uma grande metrópole de hoje, a Roma do século 5 era uma cidade pulsante, com 1 milhão de habitantes, repleta de palácios, templos e locais de diversão. Depois de um dia de trabalho, um romano típico ia dar uma espiada em uma das lutas no Coliseu. Até o final do Império Romano, no ano 476, o anfiteatro funcionou a todo vapor. Inaugurado por volta do ano 80 a.C., comportava até 55 mil espectadores. Calcula-se que 200 mil gladiadores tenham morrido ali. O Coliseu ficava no coração da cidade, ao lado do Fórum, onde se desenrolava a vida política, econômica e jurídica de Roma. O ritmo agitado do Fórum tinha como contrapartida as termas, onde a elite, formada por proprietários de terra e membros do governo, iam espairecer. A primeira delas, a de Caracala, foi construída no ano 217, e a de Diocleciano, em 298. Esses prédios grandiosos, muitas vezes com decoração primorosa, abrigavam não só o local para banhos, mas também bibliotecas, bares, barbeiros, ginásios para a prática de esportes e até galerias de arte. Depois de ler, conversar e se exercitar nas termas, o cidadão romano contava com o conforto de ter água corrente em casa – um luxo raro em outras partes do mundo. Mesmo no Brasil, no século 18, os moradores do Rio de Janeiro, então capital do país, tinham de percorrer longos caminhos para buscar água nos rios e fontes. Em Roma, já no ano 312 a.C., era inaugurado o primeiro aqueduto, o Aqua Appia, que levava água de fontes naturais de colinas próximas até a cidade. A vida religiosa também era importante em Roma, e os imperadores não hesitavam em mandar erguer templos. O mais famoso deles era o Panteão, com suas colunas de 43 metros de altura e o piso de mármore colorido. Inaugurado no ano 118 pelo imperador Adriano, o edifício sobreviveu aos ataques dos bárbaros e aos estragos do tempo. Os governantes também não pensaram duas vezes em fazer estradas pavimentadas por onde passavam as tropas. A primeira delas, aberta em 310 a.C., foi a Via Appia, onde até hoje estão as marcas das bigas romanas. Era por lá que as legiões entravam na cidade depois de uma batalha vitoriosa. Como a Via Appia, outros testemunhos da Roma antiga, como o Coliseu, as termas de Caracala, o Panteão e partes do Fórum, todos ainda de pé, ajudam a contar uma história que, quase 2 mil anos depois, ainda é fascinante.

Fonte:Carla Aranha.